Águeda ainda não recuperou do trágico acidente com um autocarro que, no sábado, transportava para um concerto em S. Paio de Oleiros, o coro do Orfeão.
Ontem, terça-feira realizou-se o funeral da vítima mortal, Ana Paula Silva, de 44 anos. Até ao fecho desta edição, permaneciam hospitalizados, com uma avaliação clínica estável, 12 coralistas e o condutor do autocarro, Fernando Cavaco, que se encontrava em “estado crítico”, de acordo com fonte do Hospital São João, no Porto. O homem, de 55 anos permanecia internado com um traumatismo crânio-encefálico.
O acidente ocorreu no sábado, cerca das 20.15 horas, em Arrifana, Santa Maria da Feira. O autocarro da Auto Viação Aveirense, da Gafanha da Nazaré, que ao serviço da autarquia transportava o grupo coral, despistou-se numa curva apertada, a cerca de cem metros do acesso ao IC2. O veículo capotou e ficou tombado lateralmente, batendo nos rails de protecção, que com a força do impacto, foram arrancados.
O autocarro fez o trajecto pela A1 e saiu na portagem de Santa Maria da Feira. Seguiu pela Estrada Nacional 223 e foi no acesso à IC2, já em Arrifana, que se despistou. De acordo com o presidente da Câmara de Águeda, Gil Nadais, que imediatamente se deslocou ao local, o autocarro transportava 39 passageiros. Só oito saíram praticamente ilesos do acidente. Dos feridos, sete ficaram em estado grave. A vítima mortal, Ana Paula Silva, que foi transportada do local já sem vida, ficou presa entre os railes de protecção da estrada e o autocarro e, segundo alguns passageiros, estaria em pé, junto do condutor do veículo.
Ana Paula Silva é filha do presidente do Orfeão, António Silva muito conhecido em Águeda por ser o director do semanário Soberania do Povo e por ser um empresário de sucesso das firmas SIM SA, Macroplast Lda., Hélder Pires Lda., e na Going Bike. Ana Paula Silva, para além de coralista era secretária de direcção do grupo coral.
Outros ocupantes ficaram encarcerados dentro do veículo, nomeadamente Viviane Felício Eusébio, grávida de pouco mais de um mês. Os ferimentos mais graves ocorreram nas pessoas que iam sentadas do lado das janelas. Fracturas ósseas são os traumatismos mais comuns entre as vítimas do acidente, mas o contacto directo com o alcatrão, levou à amputação de membros em dois dos passeiros.
No local, a prestar socorro estiveram 79 bombeiros, de quatro corporações, 25 veículos operacionais, nomeadamente 17 ambulâncias, três carros de desencarceramento e quatro viaturas médicas de emergência e reanimação e dois helicópteros de socorro e assistência.
Para prestar algum conforto às vítimas, o presidente da Câmara de Águeda, Gil Nadais, o vice-presidente, Jorge Almeida e o vereador João Clemente e o médico Horácio Marçal deslocaram-se até ao local do acidente e durante toda a madrugada foram tentando inteirar-se da situação, junto dos hospitais.
A autarquia disponibilizou apoio psicológico às vítimas e está a tratar da documentação necessária para accionar os seguros. O processo, acreditam os autarcas locais não de-verá ser moroso.
Consciente de que nestas alturas, toda a ajuda é pouca, Gil Nadais tem feito visitas regulares aos hospitais onde permanecem internadas as vítimas. O objectivo é perceber se há ou não necessidades urgentes para encontrar soluções também urgentes e, claro, dar algum conforto às vítimas e famílias.
Apesar de ainda não serem conhecidas as causas do acidente, o excesso de velocidade é a hipótese avançada pelos passageiros do autocarro. O administrador da Auto Aviação Aveirense, Ricardo Afonso garantiu ao Correio da Manhã que o acidente não se ficou a dever a uma falha mecânica. De acordo com o responsável da empresa, os técnicos realizaram uma peritagem aos principais órgãos mecânicos do autocarro e não foi detectada qualquer ano-malia. Ao mesmo jornal, Ricardo Afonso disse que o condutor trabalha há oito anos na empresa e que é um motorista experiente. Na Auto Viação Aveirense foi, no entanto, aberto um inquérito.
Única vítima mortal deixa três filhos
Ana Paula Ferreira da Silva nasceu em Aguada de Baixo, a 12 de Fevereiro de 1965, mas durante anos viveu em Travassô. Actualmente residia em Águeda. Era filha de António Almeida da Silva (presidente do Orfeão) e de Célia Alves Ferreira.
Mãe de três filhos, dois rapazes de 24 e 20 anos e uma menina de 15 anos. Era coralista e secretária da direcção e colaborava com o pai na gerência das firmas SIM SA, Macroplast Lda., Hélder Pires Lda., e na Going Bike, com sede na Borralha, Águeda.
Pessoa muito activa e ligada ao associativismo, repartia a vida pela família, as empresas e pelo Orfeão de Águeda, sendo um dos membros mais entusiastas e dedicados à colectividade. Pela sua falta e as condições do seu falecimento, ao serviço do Orfeão, deixam uma profunda mágoa e uma eterna saudade, não só nos orfeanistas, como em todas as pessoas que conviveram com a Ana Paula.
Como aconteceu com o grupo folclórico da Região do Vouga, há 12 anos, Águeda perde assim, mais uma pessoa que se dedicava com entusiasmo ao associativismo e à cultura popular, sabendo, ao mesmo tempo, empresária e gestora de reconhecidos méritos.
“Foi Deus que esteve do meu lado”
Gracinda Rodrigues Martins fazia parte do coro até há quinze dias atrás. Foi na quarta-feira de há duas semanas que entregou as coisas, a pasta, o vestido e o lenço que durante quatro anos usou ao serviço do Orfeão.
Optou por sair do grupo por questões familiares, para dedicar mais tempo às netas e, porque acredita que aos 67 anos é altura de dar vez aos mais novos que garante, são umas jóias as do Orfeão. Agora, depois do que aconteceu, reconhece que “foi Deus” que esteve do seu lado. Desde que abandonou o grupo, a actuação em São Paio de Oleiros foi a primeira fora do concelho em que não participou.
“Estava em casa, quando às dez e tal da noite ligou uma colega de trabalho da minha filha, que sabia que eu andava no Orfeão, a perguntar se eu estava bem. Foi ela que nos falou do acidente”, conta. Gracinda Rodrigues Martins diz que tinha visto a notícia do acidente com um autocarro, na televisão, mas nunca associou ao Orfeão. Nervosa conta que ligou “logo para a D. Ema, que ia lá com a filha e o marido”. “Atendeu-me a filha, a Sarinha que estava muito assustada. Dizia que não sabia de nada, que estavam uns para cada lado, que não me sabia dizer mais nada. Nem sei descrever o que senti”, acrescenta.
No dia seguinte, na missa das 10 horas, em Águeda, é que soube quem tinha falecido. “Nem queria acreditar”. “A Ana Paula era uma pessoa com muita paciência para nós de mais idade e para os jovens. Sempre amiga e disponível para ajudar. É uma grande perda para o Orfeão”.
Rosa Laranjeira Martins mantém o optimismo
Rosa Laranjeira Martins, de 58 anos continua internada na unidade de ortopedia do Hospital de Santa Maria da Feira.
Apesar da “tragédia” e de ter uma “fractura na mão esquerda com esmagamento e outra fractura na clavícula direita” como conta o marido, a contralto do Orfeão irradia simpatia e ânimo para as visitas, o marido, a filha, e o presidente da Câmara, Gil Nadais que na segunda-feira visitou os feridos internados, nos hospitais de Santa Maria da Feira, Aveiro e Águeda.
Rosa Laranjeira Martins ia sentada ao lado do irmão, do lado da janela. Garante que sentiu o autocarro a andar muito depressa e que temeu logo o pior. Depois foi o ver o veículo a “rabear, a fazer ondas”. “Quando entrou na curva, o condutor nunca mais segurou o autocarro. O vidro partiu e o meu corpo foi arrastando no chão. O meu irmão caiu por cima de mim. As minhas costas também estão bastante miseráveis”, conta. Saiu pelo próprio pé.
O marido, o presidente da Junta de Freguesia de Travassô, Mário Ramos Martins estava na missa quando sentiu o telefone a tocar. Primeiro foi o vice-presidente da Câmara, Jorge Almeida, depois a sobrinha. Várias chamadas seguidas que o fizeram logo perceber que “alguma coisa não estava a correr bem”. Aguardou que a missa terminasse e as primeiras informações que recebeu “foi uma coisa muito vaga”. Deslocou-se imediatamente para o local do acidente e deparou-se com “aquela envolvência toda”. Apesar da pouca informação conseguiu rapidamente localizar a mulher e o cunhado, Manuel Matos Laranjeira que “em termos visíveis não tinha grandes ferimentos nem qualquer fractura. No entanto, no domingo passou o dia na cama e continua com muitas dores no peito”.
Rosa Laranjeira Martins só há dois anos anda no Orfeão de Águeda, mas o marido babado e divertido como sempre garante que “só ela vale por meio grupo”.
A contralto do Orfeão não sabe quando vai ter alta, já que ainda está a recuperar de intervenção cirúrgica, mas aguarda com serenidade e com total optimismo as decisões dos médicos.
“Ganhei coragem e liguei à minha família”
Desde os 12, 13 anos que Maria Edite Gonçalves canta no Órfeão. Hoje, com 52 anos recupera no Hospital de Águeda das lesões do acidente.
Ia sentada no segundo banco, do lado do motorista e diz que se apercebeu de tudo. “Durante bastante tempo vi o autocarro a virar, agarrei-me bem e protegi a cara. Depois fui sentido as coisas a caírem para cima de mim”, conta. O facto de ter sido perspicaz e se ter protegido bem, acredita tenha sido meio caminho andado para ter tido lesões menos graves que a maioria dos colegas.
O mais alarmante diz, é mesmo o esfacelamento do braço esquerdo.
Saiu pelo próprio pé e enrolou a fralda da camisa ao braço e enquanto pode andou por ali, a deixar ser socorridas as pessoas que lhe pareceram precisar mais de ajuda. Ganhou coragem, característica que admite, desconhecia em si e até ligou à família a contar o que tinha acontecido. No mesmo autocarro ia o primo Júlio Balreira, que apesar de afastado em termos geracionais “é um primo muito próximo”.
O presidente da concelhia da CDU de Águeda teve alta do Hospital de Santa Maria da Feira na madrugada de domingo, horas após o acidente, mas permanece em repouso em casa. Tem “duas vértebras fracturadas e muitas nódoas negras”.
Júlio Balreira vinha na conversa com um amigo, que permanece internado no Hospital de Coimbra, quando se apercebeu que “alguma coisa de estranho estava a acontecer”. Depois, “o que se passou a seguir”, garante, “é indescritível”. “Para além dos vidros, ferros, tudo partido, o autocarro ainda andou ali de zorros algum tempo”, o que, na sua opinião acabou por causar consequências mais graves nas vítimas do acidente.
Júlio Balreira saiu pelo próprio pé do autocarro, mas logo com muitas dores, por isso deitou-se no chão e aguardou a chegada do INEM, que o transportou para o Hospital de santa Maria da Feira.
Grávida recupera com ajuda das colegas
Luís Soares e a mulher Viviane foram duas das vítimas do acidente. Souberam que iam ser pais há pouco mais de uma semana e com a gravidade do acidente temeram o pior.
Luís Soares teve alta e apesar de estar “todo dorido e com mazelas no corpo” já voltou a trabalhar. A mulher, grávida de pouco mais de um mês permanece internada no Hospital Infante D. Pedro, em Aveiro e quanto à gravidez, apesar de ser de risco, não foi detectado qualquer problema com o feto. Com fractura na bacia, de acordo com o marido, “na zona que segura o útero”, mantém-se em total repouso.
Enfermeira de profissão trabalha precisamente na unidade de saúde que agora a acolhe. Lamenta não ter podido ajudar os colegas na noite do acidente. Sentiu-se até frustrada, em “querer ajudar e não poder”.
Viviane Felício Eusébio e o marido vinham sentados em bancos “do meio para trás do autocarro”. Era a mulher que vinha do lado do vidro e que após o despiste e capotamento do autocarro “ficou sentada na parte de cima do vidro”. Conta que perdeu sentidos, mantendo apenas a audição. Uma das pernas não mexia. Estava num local de passagem e viu todos a serem retirados e a passar por ela. “É difícil descrever” o que sentiu. Mas descrever a condução do automobilista garante, é mais fácil. Segundo o casal, todos os passageiros tiveram noção do que ia acontecer, já que “circulava com velocidade a mais para o local”. “Quando o vi a virar para a saída àquela velocidade, pensei para mim: este condutor é louco”, diz Luís Soares.
Depois de ter noção do que ia acontecer, o jovem casal teve a reacção de se proteger um no outro. Durante alguns segundos não sabe o que aconteceu e depois “foi o que se viu”. “Houve muito o pânico. Eram uns a gritarem do medo, do susto, eram outros a gritarem para pedir calma. Felizmente houve muita gente que conseguiu sair pelo próprio pé”, conta.
Luís Soares está certo que o incidente “causou mazelas em termos de grupo colectivo”. “Vai ser difícil voltarmos aos ensaios, quanto mais voltarmos a entrar num autocarro para ir a uma actuação”, diz.
A fazer dez anos de coralista no orfeão, Luís Soares conhecia bem Ana Paula. Garante que era uma pessoa muito activa e insubstituível. Momentos antes do acidente, Luís Soares conta que Ana Paula tinha ido anunciar ao microfone que no domingo, o maestro, Paulo Neto fazia anos e que lhe iam fazer uma pequena surpresa que incluía a oferta de um ramo de flores, mal desse a meia-noite. Cada um dava o que queria e foi a própria Ana Paula que andou a fazer a recolha dos donativos. Luís Soares garante que Ana Paula não era pessoa de andar em pé, não fosse neste tipo de situações.
Luís Soares é também presidente e maestro do coro da ARCEL. A mulher Viviane, apesar de natural de Calvão frequenta o Orfeão desde 2000.