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Director: Horácio Marçal

Sábado, 31 de Julho de 2010

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"Aproveitar o momento político actual"

O município de Águeda, através do presidente da Câmara Municipal, Gil Nadais, tem levado a efeito algumas iniciativas que visam a discussão de novas estratégias de desenvolvimento e os desafios que o futuro reserva para as cidades.

Artur Rosa Pires, professor catedrático da Universidade de Aveiro, em entrevista ao Litoral Centro traçou algumas das bases que devem ser seguidas, de forma a que Águeda possa ser um concelho competitivo. Inovação e cultura foram duas das “armas” de Rosa Pires referiu para que o futuro seja risonho para os aguedenses.

[litoralcentro] QUAL É O MOMENTO ACTUAL DE DESENVOLVIMENTO DE ÁGUEDA?
[artur rosa pires]
Acho que Águeda está no momento ideal para se desenvolver. Há um momento político e institucional particularmente forte, onde não só se procuram soluções novas como novas formas de encontrar as soluções. E há um novo quadro de poplíticas públicas que se avizinha (o QREN) e que poderá apoiar essas novas soluções. Tenho expectativa que a CCDR Centro saiba desenhar um Programa Operacional que permita a um concelho como Águeda concretizar muito do seu enorme potencial de desenvolvimento.

Esteve quanto tempo na CCDR?
Estive dois anos e foi tempo suficiente para fazermos trabalhos muito interessante nos pelouros que tinha sob a minha responsabilidade. Por exemplo, na área da inovação, colaborámos muito com as universidades, politécnicos, tecnológicos e com o Conselho Empresarial do Centro para prepararmos o futuro da Região Centro. Tudo isto foi inspirado nas noções teóricas que levei quando fui para a CCDR. Sou da opinião que para colocarmos as nossas ideias em prática é preciso haver uma base teórica bastante consolidada. Costumo dizer que não há nada mais prático que uma boa teoria e nos meus trabalhos práticos tenho tido a preocupação de ter uma noção clara do momento actual. E foi isso que fiz nos tempos que estive na Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR), com um pequeno intervalo para ir até Lisboa.

Qual é a diferença entre o novo plano para o desenvolvimento de Águeda de 2006 e o plano estratégico que idealizou em 2001?
Há um conjunto de diferenças. O trabalho de 2001 deu para percebermos onde é que nós estávamos. Os autores daquele plano foram muitos aguedenses. Muitas das ideias que lá estão foram “bebidas” nas entrevistas que fizemos e aos muitos contactos que tivemos. Houve uma preocupação de selectividade e coerência, mas, em suma, os autores do plano estratégico foram os aguedenses. Esta foi a fase um, mas tem de haver uma fase dois, que é lançar as ideias na prática, só que vão sempre acontecendo coisas novas.

Em que aspectos?
Repare que a actualidade nos diz que vem aí um novo quadro comunitário, que com ele acarreta novas oportunidades e outras preocupações. Há uma dinâmica regional mais vincada e uma maior consciencialização da importância da ciência, não só para a actividade económica, como para a qualidade de vida da sociedade. E há mais uma coisa: a importância fundamental de construir um poder local novo, do futuro.

Nesse aspecto, águeda tem condições para isso, já que mudou de liderança camarária?
Por isso e não só. O momento político é muio bom, porque existe um novo presidente e um partido que quer afirmar-se. Acresce que o principal partido de oposição sabe que tem de merecer regressar ao poder e os outros partidos sabem que também têm uma boa oportunidade para vir a integrar a esfera do poder. Ou seja, no contexto actual gerou-se uma nova energia política, porque todos os partidos sentem que pode haver uma contribuição activa forte.

Este momento de águeda deve ser aproveitado por que áreas da sociedade?
Temos de reconhecer que a sociedade tem interesses diferentes, mas existem possibilidades de existirem ideias conjuntas, em que todos saiam a ganhar. E é aqui que eu acho que se podem fazer coisas interessantes. Não podemos esperar que se juntem 45 mil pessoas em torno de um assunto. No entanto, podem existir entidades que estejam unidas por um só objectivo: a Câmara e a Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Águeda podem ser muito importantes. E, depois, Águeda já tem empresas que apostam na tecnologia de ponta na chamada economia de conhecimento, o que é uma vantagem incrível, mas vão ter falta de recursos humanos que tenham outra visão. 
 
Está a querer dizer que Águeda não tem sabido aproveitar as potencialidades da ESTGA?
O problema não é apenas de Águeda, mas sim de todo o país. Antes do plano estratégico não havia um estudo em como o concelho podia e devia aproveitar a colaboração da Universidade de Aveiro. É verdade que Águeda pode tirar mais partido da ESTGA, aproveitando também o facto de a escola ter um novo director, que quererá naturalmente deixar a sua marca pessoal. Em suma, penso que o concelho tem mais do que condições para reescrever o seu guião para o desenvolvimento.

O que precisa águeda para escrever, então, o seu guião para o desenvolvimento?
Precisa de ser capaz de desenvolver iniciativas concretas que as pessoas entendam e às quais reconheçam valor. Vai ter de haver um motor, que pode muito bem ser o sector político, pois todos os partidos querem fazer coisas diferentes, com o apoio dos quadros empresarial e cultural. Este motor terá de ter visão e uma capacidade técnica para fazer com que haja concretizações que sejam mensuráveis, ou seja, que obrigue a haver rigor na sua execução e com prestação de contas.

Na sua opinião, quais são as verdadeiras carências de águeda?
Esbocei isso naquele debate em que marquei presença. Necessita, principalmente, de ligar aciência e a tecnologia à economia. Este é um ponto de partida para a competitividade no futuro, aliás um desafio para Portugal. Depois, necessita de começar a valorizar a sua própria história, cultura e recursos naturais, potenciando também a articulação com ciência e tecnologia. Tem de perceber e projectar a sua presença no mundo, através de tosos os seus sectores da sociedade. Águeda precisa de dinamizar uma comunidade política sub-regional, porque precisamos de mais massa crítica para sermos eficazes em várias áreas de actuação.

Há mais necessidades?
Precisa de crescer interiormente, puxando as pessoas para as coisas públicas.  

O Plano Estratégico dizia isso mesmo...
É importante fazer uma reavaliação do plano estratégico e da sua validade, mas as linhas mestras são iguais durante anos.

Encontra alguma razão para o facto de águeda ter alguma dificuldade em atrair novos empresários?
Não tenho muita informação para abordar o assunto com rigor académico. O que sinto é que, em Portugal, temos de dar um passo para a economia do conhecimento, que deverá ser um factor de competitividade. Águeda tem de avançar também para este passo, apesar de existirem empresas que já estão neste nível, mas o concelho tem de apostar nisto de uma forma muito mais vincada, aproveitando a mais valia da Escola Superior.

Para haver um desenvolvimento sustentado, é preciso uma parceria entre a tecnologia, o poder político, a actividade empresarial e a ESTGA?
Sim. Há sempre condições para se fazer um desenvolvimento sustentado, até porque todos os sectores se complementam.

Considera que algumas das empresas de referência de águeda acabam por falir por não terem apostado na inovação?
Sim, mas também há outras que apostaram e estão a dar cartas no mundo, muito por "culpa" da sua competitividade associada à gestão e apostas tecnológicas.

Lamenta não ter resolvido o problema da pateira de Fermentelos quando esteve no Governo?
Lamento, por muitas razõs. Tenho pena por sentir que tinha uma oportunidade de intervir activamente. Há várias vertentes que devem ser valorizadas. A pateira tem uma história riquíssima e é um laboratório científico valiosíssimo. Há bem pouco tempo, num colóquio, apercebi-me da importância da pateira que influencia a alimentação de aquíferos que se estendem por toda a região do Baixo Vouga.É uma das belezas naturais de Águeda e, apesar de ainda não ser reconhecida como tal, pode ser um forte polo dinamizador turístico do concelho, assim se estabelecendo uma ligação à dinâmica económica concelhia.

Como técnico nesta matéria, faz falta a águeda uma agenda XXI local?
Foi uma ideia muito interessante quando nasceu. Houve vários países que apostaram nela e começam a ser conhecidos resultados e também alguns insucessos. Há hoje novas abordagens técnicas mais estimulantes. Quem avançar para este instrumento, terá de fazer uma reflexão crítica sobre a forma como é elaborado, apostando em resultdos mensuráveis que possam ser avaliados. Não chega pensar-se que as equipas que os elaboram, por muito boas que sejam, conseguem ter sucesso no terreno.Por isso, a comunidade deve assumir o seu papel, mostrando-se muito mais crítica e participativa.

Autor: Miguel Cunha
Foto: Ana J. Ribeiro
Sexta-feira, 29 de Dezembro de 2006 - 10:47:49

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