1. Nas últimas semanas a governação do país tem sido caracte-rizada por avanços e recuos nos mais diversos domínios da vida portuguesa.
Se estabelecermos um balanço entre estas duas posições antagónicas aos olhos do cidadão comum, mas compreensíveis no plano político, podemos afirmar que, na situação actual, o governo ainda não “recuou” o necessário para poder daqui a três anos colocar o défice abaixo dos três por cento, valor imposto pela sacrossanta Comissão Europeia.
O que me tem surpreendido no processo governativo é a forma como certos actores políticos apresentam os assuntos como se fossem detentores da verdade absoluta. Recentemente, o presidente do BPI, Fernando Ulrich, fez declarações de uma enorme dureza sobre a real situação financeira portuguesa. Como o presidente do banco não partilhava a opinião do primeiro-ministro, este chamou-o de “irresponsável”. Só que os outros presidentes dos grandes bancos portugueses (privados) acompanhados pelo da CGD (público) vieram bater na mesma tecla, desta vez de maneira mais suave. Esperemos que José Sócrates não apelida todos eles de “irresponsáveis”. Como diria o primeiro-mi-nistro: “era o que faltava…”
2. Há poucos dias foi assinado o contracto para a construção do troço da linha da alta velocidade, entre o Poceirão e Caia, que liga Lisboa a Madrid por TGV.
São vários os episódios à volta deste acontecimento que poderiam ser considerados como simples “fait-divers”, se no caso vertente, não se utilizassem fundos que vão agravar a malfadada dívida pública. O primeiro, é o anúncio de que irá ser construída uma linha férrea para mercadorias, paralela à do TGV, que custará 260 milhões de euros. Ela será posteriormente desmontada, vislumbrando-se, deste já, segundo se espera, o interesse de um dos sucateiros de serviço. O segundo, refere-se à linha do TGV na parte espanhola. Dos 560 Kms de linha, só 52 estão em funcionamento (troço comum à linha Madrid - Sevilha) e dos 508 que faltam construir, 280 nem projecto têm. Como os nossos “hermanos” são mais pragmáticos do que nós (sabem dançar além do tango o passo-doble), já suspenderam o TGV e baralham Portugal. O terceiro, diz respeito à desistência do BPI em financiar o consórcio Elos, liderado pela Brisa/Soares da Costa, por alte-ração das condições financeiras. O quarto, refere-se a afirmações do ministro das Obras públicas que carecem de fundamentação: “adiar o TGV significa perder fundos e pagar indemnizações a Espanha”.
Perante este factos é legítimo perguntar o porquê de tanta pressa no arranque da construção. Será mesmo pelos fundos que vamos perder e por ter de pagar indemnizações a Espanha? E se o contrário se passar, isto é, a Espanha atrasar-se na construção? Será que também ela pagará indemnizações? É mais correcto dar explicações mais plausíveis e deixar de dar tanga os portugueses.
3. O mais interessante em todo este processo é que a linha entre Lisboa e Madrid começa a ser cons-truída no Poceirão ( o troço Poceirão - Caia custa 1.359 milhões de euros) e que a ligação entre aquela localidade e Lisboa, segundo o ministro das Obras Públicas, “terá que ser feita” (mas quando e com que dinheiro?).
É que a ligação Lisboa-Poceirão inclui a terceira travessia do Tejo e custará 2000 milhões de euros. O primeiro concurso para a execução da obra ganha pela Tave Tejo, consórcio liderado pelos espanhóis da FCC com componente nacional mínima, foi anulado depois da contestação do consórcio Altavia, liderado pela Mota-Engil (é bem conhecida o seu CEO). Segundo o Secretário de Estado, novo concurso vai ser lançado dentro de seis meses. A ver vamos…
4. No passado dia 21 o país foi confrontado com dois acontecimentos. O primeiro, a moção de censura ao Governo apresentada pelo PCP. Não vou discutir a bondade desta moção, mas apreciei a argumentação dos partidos com assento parlamentar, com excepção do PS. Mais uma vez, na ânsia legítima de apoiar o Governo, aquele partido apresentou uma argumentação que sabe a pouco, … muito pouco. O segundo, refere-se à nova tabela do IRS apresentada pelo ministro das Finanças e à confusão sobre os prazos da sua entrada em vigor. Uma análise mais profunda do seu conteúdo ajudou-nos a elaborar um novo “slogan”, diferente daquele utilizado nos anos da brasa pelo MRPP (“os ricos que paguem a crise”) e que só pode ser “os pobre que paguem a crise”.
Edmundo da Fonseca