1. Morreu Saldanha Sanches. Foi-se um dos mais brilhantes fiscalistas do nosso tempo, que dedicou grande parte da vida a lutar contra a corrupção e o compadrio que inquinam o sistema político-partidário a nível central e local da Administração Pública em detrimento da honestidade e competência profissionais. Inteligente, íntegro e frontal, por vezes mordaz, quer nos seus artigos de opinião quer nas intervenções televisivas e seminários científicos em que participou, nunca receou pôr os nomes aos bois e sem papas na língua.
O seu último artigo no «Expresso» de 15 de Maio, _ “O Papa-reformas” _, escrito já no seu leito de morte, é a prova provada do que se afirma.
Revolta-se, com o desassombro de sempre, contra a iniquidade dos sacrifícios que são impostos ao povo numa crise em que, os que a causaram através do esbanjamento dos dinheiros públicos, não lhes sofrem as consequências nem serão responsabilizados.
Extrai-se do seu miolo: Depois de esclarecer que «de nada serve aumentar o IVA, ou tributar mais- -valias, se o Estado continua a esbanjar recursos», acrescenta que «no esbanjadouro são muito claros dois tipos de papa-reformas: as obras públicas desnecessárias e os papa-reformas em sentido próprio.» Para depois exemplificar: «O Estado (o Governo, o primeiro- -ministro) vive agrilhoado a um conjunto de compromissos políticos, arranjinhos, promessas, vassalagens, dívidas que paga periodicamente em quilómetros de auto-estradas, túneis e, agora, em TGV com paragens em todas as estações e apeadeiros do poder local (desenhado em cima do mapa da volta a Portugal em bicicleta). E zurzir com acerto os «papa-reformas, profissionais da acumulação de reformas públicas, semipúblicas e semiprivadas», como acontece no Banco de Portugal, Emissora Nacional/RTP e Carris e noutras empresas de capitais do Estado, «muitas vezes até com carreiras contributivas virtuais, sem trabalho e com promoções».
Tudo isto, claro, a ser pago com língua de palmo pelos contribuintes e não pelos que lhes vão aos bolsos.
Saldanha Sanches faz falta, mas terá continuadores. É a melhor homenagem que se lhe pode prestar neste momento.
2. Passos Coelho deu a mão a Sócrates para salvar o País e pede desculpa ao povo por o fazer. Estará a perspectivar que cometeu um erro? Não foi a rã que se prontificou a levar às costas o lacrau na travessia do rio e logo que alcançou a margem lhe sucumbiu ao ferrão venenoso?
As coisas são muito claras: a crise é séria e exige sacrifícios sérios. Só com seriedade e competência pode ser debelada. Levaram-se quatro anos de maioria absoluta e dobraram-se mais de seis meses de maioria relativa em que a ausência de seriedade e de competência foi a pedra de toque dos governos de Sócrates. Período suficiente para não se confiar na sua capacidade, seja para o que for.